MITOS SOBRE AS AVES

A alegada toxicidade da espatódea, Spathodea campanulata, para beija-flores.

Encontra-se aqui e ali informação de que a espatódea, Spathodea campanulata, árvore originária da África, em nosso meio introduzida pelo seu grande potencial ornamental, é venenosa para beija-flores e também para abelhas e outros insetos. Numa pesquisa rápida na Internet já se pode achar diversas menções deste tipo, até em trechos de prosa: “Os lírios-do-brejo pouco têm de acanhados, não é? E a espatódea amarela, que não envenena passarinho, que enorme!” [Os Jardins de Cristina. Jornal de Jundiaí] [a espatódea amarela é uma sub-espécie de S. campanulata]. De científico mesmo só é sabido que a planta tem de fato princípios ativos, já notados pelas populações nativas da área de ocorrência natural da espécie, onde a planta é utilizada para fins medicinais. Tem um alcalóide que produz alucinações como principal sintoma da intoxicação. É também comprovado que tem ação letal para alguns insetos, o que já causou preocupação entre apicultores. Um estudo feito em nosso meio [Trigo, J. R. & Santos, W. F. (2000) Insect mortality in Spathodea campanulata Beauv. (Bignoniaceae) flowers. Rev. Brasil. Biol. 60(3):537-538.] explica que a defesa química de Spathodea visa impedir que o pólem e o néctar seja roubado por insetos antes da antese, reduzindo ou evitando a polinização por vertebrados. Além da proteção química, a mucilagem da planta atua mecanicamente, “sufocando” as abelhas. Da mesma forma, a proteção química pode não estar relacionada aos ladrões de pólem ou néctar, mas aos herbívoros em flores.

Portanto, o mais provável é que o néctar não tenha efeito tóxico para os polinizadores vertebrados (além dos beija-flores são citados morcegos e possivelmente lêmures), o que não seria de fato interessante para a planta. Diversos observadores de aves relataram que nunca observaram beija-flores com qualquer sinal de debilidade ou mortos próximo a estas aves, a despeito de as frequentarem com grande avidez. Trata-se certamente então de uma falsa suposição, a de que beija-flores também seriam envenenados pelo néctar da espatódea, com base apenas no fato de este envenenamento está comprovado no caso de alguns insetos.


Luiz Fernando de Andrade Figueiredo